quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Trechos de "Da sombra até a luz", de Otávio Frias Filho, um dos textos de apresentação de "Fotografia de Palco", de Lenise Pinheiro

"A fotografia no teatro costuma ter objetivo documental. Mas quando o fotógrafo trabalha como artista, ele se lança na perseguição daquele lapso em que o acontecimento teatral pode ser retido como uma borboleta, presa na rede, que logo a seguir se soltasse. [...] Ocorre que a paisagem documental é intensamente defletida pela autora. Nas fotos de Lenise Pinheiro, não apenas as escolhas têm o sal do arbitrário (a começar da seqüência fora de cronologia), mas as próprias angulações são recortadas à força, obrigando a um esforço de introspecção, ou seja, de estranheza em meio à intimidade. Às vezes até o enquadramento é caprichoso, obliterado num fetichismo que decepa corpos e decompõe cenas a fim de surpreender o teatro enquanto ele se forma nos espelhos dos camarins, na monotonia dos ensaios, numa risada do público. Por essas fotos desfila uma multidão de possessos, mandarins e ETs, de prostitutas, trânsfugas e palhaços - "os magos da minha profissão", no dizer da artista. Eles estiveram ali para nos poupar de viver as extremidades da vida. Em recompensa pelo encargo de assumir toda a comédia do mundo, só a eles é dada a ventura de siar da sua casca mortal para encarnar como deuses em outros seres. A obra de Lenise Pinheiro recria essa expansão do espírito para além da fronteira conhecida, tornando indeléveis, no acetato e agora no papel, as descobertas que ele arrastou da sombra até a luz."

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